Reabilitação urbana e sustentabilidade: construir de raiz não é sinónimo de construir melhor

Há uma ideia que circula no setor imobiliário com alguma regularidade: a de que construir de raiz, com materiais mais recentes e sistemas mais eficientes, é necessariamente mais sustentável do que reabilitar um edifício existente. É uma conversa importante, mas incompleta. Porque o edifício mais sustentável pode ser, muitas vezes, aquele que já existe.

 

A lógica que falta na equação

 

Durante décadas, avaliar a sustentabilidade de um edifício significava medir o que ele consumia em operação: energia, água, emissões. É uma métrica relevante, mas incompleta.

O carbono incorporado, as emissões geradas na extração, produção e transporte dos materiais de construção, bem como no processo construtivo em si, podem representar entre 30% e 50% do impacto total de um edifício ao longo do seu ciclo de vida. E, ao contrário das emissões operacionais, este carbono não se reduz com painéis solares nem com sistemas de gestão eficiente: já foi emitido antes da primeira pessoa entrar no edifício.

Implica também apagar a infraestrutura que a cidade demorou décadas a construir: redes, serviços, ligações, memória.

Reabilitar significa, em grande medida, não emitir esse carbono. É partir do que já existe em vez de começar do zero, e isso tem consequências ambientais concretas que raramente são contabilizadas.

 

Reabilitar bem não é o mesmo que reabilitar

 

Dito isto, a reabilitação urbana não é, por si só, uma garantia de sustentabilidade. Um edifício reabilitado sem critério, com sistemas energéticos ineficientes, má gestão de resíduos ou desatenção à qualidade do ambiente interior, pode ter um impacto considerável. A equação é mais exigente do que simplesmente “não demolir”.

O rigor é, por isso, inegociável. É aqui que a certificação cumpre um papel que vai além do reconhecimento no final do processo, como framework de decisão desde o início. Obriga a definir objetivos mensuráveis, a documentar escolhas e a avaliar resultados reais, não apenas intenções.

Reabilitar com certificação é uma forma de provar, com dados, que a opção pelo existente foi também a opção pelo melhor.

Sem rigor, uma rebalitação urbana é apenas preservar. Com rigor, é transformar.

 

O que a cidade perde quando se opta por demolir

 

Portugal tem um parque edificado com características únicas: uma densidade histórica significativa, um stock relevante de edifícios com potencial de reconversão e uma pressão crescente sobre solo disponível nas áreas mais procuradas.

Neste contexto, a reabilitação urbana não é uma opção de nicho. É uma resposta estrutural a um problema estrutural: como é que as cidades crescem, se adaptam e se renovam sem que isso implique destruir o que já existe ou expandir indefinidamente para a periferia?

A escala urbana é, assim, onde o argumento pela reabilitação se torna mais evidente e mais ignorado.

Cada edifício reabilitado é um edifício que não gerou nova pressão sobre solo disponível, que não exigiu nova infraestrutura, que não quebrou a continuidade de uma rua ou de um bairro. É também um edifício que devolveu à cidade um espaço que estava fora de uso, sem apagar a identidade do lugar.

As cidades mais resilientes não são as que mais constroem. São as que melhor gerem o que já têm, adaptando, convertendo, prolongando a vida útil do edificado em vez de o substituir sistematicamente.

A sustentabilidade de uma cidade não se mede edifício a edifício. Mede-se na forma como esses edifícios se relacionam com o que existe à volta — com a infraestrutura, com as pessoas, com o tempo. E nesse sentido, reabilitar com propósito não é apenas a decisão mais sustentável. É, cada vez mais, a decisão mais inteligente.

 

LEED AP BD+C

O papel das certificações numa carteira com história

 

Para um promotor com um portefólio diversificado, com edifícios de diferentes épocas, usos e estados de conservação, a certificação cumpre também uma função de coerência. Define um padrão comum de exigência independentemente do projeto ser novo ou reabilitado e permite comparar desempenho entre ativos de natureza distinta.

O primeiro aspeto relevante é que os principais sistemas de certificação foram desenhados para responder precisamente a esta diversidade. O LEED, por exemplo, disponibiliza sistemas de avaliação distintos consoante a natureza do projeto: o BD+C (Building Design and Construction) para projetos de construção nova ou grande reabilitação; o O+M (Operations and Maintenance) para edifícios em operação que pretendem certificar e melhorar o seu desempenho contínuo; e o ID+C (Interior Design and Construction) para intervenções em espaços interiores. O BREEAM segue uma lógica semelhante, com as vertentes New Construction, Refurbishment & Fit-Out e In-Use, cada uma calibrada para o tipo e escala de intervenção. Esta arquitetura permite que um promotor aplique o mesmo sistema de referência a edifícios em fases completamente distintas do ciclo de vida, sem forçar a comparação direta entre realidades diferentes, mas mantendo uma linguagem comum de avaliação.

O segundo aspeto é a crescente articulação entre certificação e regulamentação europeia. A revisão da Diretiva de Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD 2024/1275) introduz requisitos progressivos de desempenho mínimo para o parque edificado existente, com particular pressão sobre os edifícios com pior classificação energética — os chamados Minimum Energy Performance Standards (MEPS). Para promotores com ativos mais antigos em portefólio, a certificação funciona como antecipação regulatória: garante que os edifícios estão alinhados com padrões que, a prazo, deixarão de ser voluntários. Da mesma forma, a Taxonomia da UE e os requisitos de reporte da CSRD/ESRS exigem que os ativos imobiliários demonstrem alinhamento com critérios técnicos de sustentabilidade mensuráveis .

O terceiro aspeto é o impacto no valor do ativo. Estudos do MSCI e da JLL mostram consistentemente que edifícios certificados registam prémios de valor e de rendas face a edifícios não certificados em mercados comparáveis, bem como taxas de desocupação mais baixas. Num contexto em que os critérios ESG ganham peso crescente nas decisões de investimento institucional, a ausência de certificação começa a ser lida não como uma omissão, mas como um risco.

Num portefólio comprometido com a sustentabilidade, a certificação não distingue entre novo e reabilitado. Distingue entre bem feito e mal feito e torna essa distinção verificável por qualquer investidor, arrendatário ou regulador.

 

O que o Buz no La Movida nos ensinou

 

Em Matosinhos Sul, num edifício devoluto anterior a 1951, o Castro Group desenvolveu o primeiro projeto Buz, hoje o primeiro espaço de flex working com certificação LEED em Matosinhos e o único da cidade certificado sob o sistema LEED v4 BD+C: New Construction. O processo de obtenção da certificação LEED Gold deixou aprendizagens concretas sobre o que significa reabilitar com rigor.

A primeira: as decisões mais importantes não se tomam em obra. Tomam-se em fase de projeto, quando ainda foi possível definir que 64% dos elementos estruturais originais seriam preservados, que os sistemas hídricos seriam desenhados para reduzir o consumo em mais de 71%, que a iluminação natural seria maximizada através de um novo poço de luz. Quando a obra começa, o impacto já está em grande parte determinado.

A segunda: reabilitar um edifício é também um ato de responsabilidade urbana. Devolver à cidade uma estrutura que estava fora de uso, em vez de a substituir por algo novo, é uma decisão cujo impacto ultrapassa o perímetro do lote. Contribui para a coerência do tecido urbano, para a memória do lugar, para a escala humana da cidade.

A terceira: sustentabilidade e ocupação não são objetivos em conflito. O Buz no La Movida atingiu 100% de ocupação e o Prémio Nacional de Reabilitação Urbana 2026 na categoria de Melhor Solução de Sustentabilidade, confirmando que o mercado reconhece e valoriza a diferença.

 

 

A construção mais sustentável não é necessariamente a mais recente. É a que parte de uma decisão consciente sobre o que vale preservar, o que vale transformar e o que se perde quando se opta por começar do zero. Reabilitação urbana com rigor não é uma alternativa à construção de qualidade, é, muitas vezes, a forma mais exigente de praticá-la. E nas cidades que precisam de crescer sem se perder, essa distinção importa cada vez mais.
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